Beligerância

Beligerância

Pergunta que fica é se a guerra é a higiene do mundo? Talvez seria se limpasse com seus defensores e idealizadores. Enquanto os animais lutam pela sobrevivência, inconscientes em maior parte disso, os seres chamados de humanos lutam pela destruição, mesmo não sobrevivendo. As vítimas da dominação continuam vítimas, mesmo entendendo se rebelar contra algum tirano ou inimigo imaginário, ou terrorista, na ilusão de que se constrói um mundo melhor, enquanto os poderosos dessa inteligentzia bélica trocam favores políticos e desfrutam do seu luxo particular, em cadeiras de escritórios. Apertam-se os botões das máquinas de morte e comemora-se a vitória sobre a própria imbecilidade haja vista que com o dinheiro gasto em batalhas se poderia acabar com a fome mundial e desfrutar de lazer em grande escala, como todo o Estado de bem estar social prometido pelas utópicas constituições dos países.
Maquiavel certa feita escreveu: “os príncipes que se interessam mais pelas coisas amenas do que pelas armas, perdem seus domínios”. “estar desarmado significa perder a consideração”. Mesmo em nossa lógica desapaixonada de mundos virtuais e relacionamentos egocêntricos, vemos que os governantes continuam defendendo nacionalismos, cada um ao pilotar a grande máquina governamental que sustenta toda uma massa de transformação que ocorre a passos de tartaruga, rumo à democracia maior, em que pese os grandes preconceitos já semeados há milênios na cultura e mesmo no seio da família, esta última tão protegida pelo clero romano. Governantes hoje devem antes se armarem de boas obras em suas competências e ter a arma do discurso, pois só se usa a máquina de morte quando cessa o discurso.
Disse Maquiavel: “Todo o estado bem ordenado deseja que a arte da guerra seja, em tempos de paz, empregada apenas como exercício, e que, havendo hostilidades, seja para atender à necessidade, pela sua glória..”.  De fato, o treino hoje pode ser substituído pelo esporte e pela ginástica, bem como a academia. O melhor seria o fim das forças militares, haja vista que de outro modo, semeamos ainda uma terceira guerra mundial. Maquiavel, assim como outros que procuraram entender a arte da guerra, sabia que o interesse era ampliação territorial. Hoje vemos mais uma busca de ampliação econômica, e a guerra é fiscal e diplomática, ainda existindo formas escusas de guerra, como a invenção de uma gripe para vender vacinas, na forma de teste para armas biológicas. Também os craquers são úteis, haja vista poderem ser protótipo de futuras armas cibernéticas. Mas o estado bem ordenado investe em armas, e nós compramos caças há algum tempo, a fim de renovar nossa frota, temos submarinos, poucos, mas tudo parece ser uma forma de satisfazer interesses internacionais na proteção da Amazônia, que já consideram alguns patrimônio não do Brasil, mas da humanidade, afronta clara a nossa soberania, soberania essa que dá lugar ao Governo Mundial na Nova Ordem.
Lao-Tsé disse que “mentalizar o mal é perigoso” e “quem se contenta com o necessário, vive em paz imperturbável”. Parece que cada um de nós é responsável pela guerra, mesmo não participando ativamente. A não-violência hoje é mais revolucionária, e a inteligência leva a isso, apesar da moralidade se ver cada vez mais secundária, e da frieza com que os meios de comunicação vão disseminando nas nações. Mas devemos cuidar primeiro do nosso jardim, para depois pensar no mundo, como ensinam os orientais. Então uma desavença familiar é uma guerra em âmbito familiar, com as mesmas estratégias e instrumentos teóricos da guerra mundial, apesar de se ver em pequena célula ou microssistema. A ética dos mestres sempre foi antes uma guerra contra a ignorância e consigo mesmo, uma vez que trazemos os piores demônios, senão O Demônio, dentro de nós mesmos, e assim somos perigosos, pelo ato de matar ou de se matar. Quando japoneses sentiram perder a guerra na 2ª Guerra, começaram a suicidar, em grande escala. Logo a pulsão de morte se viu ao extremo, não mais inconsciente ao modo de Freud, mas refletida em catarses extremas. Não agir em meio a guerra seria a ética taoista. Outros defender dar a outra face, e outros acham que estão guerreando contra Satã.
Hoje a guerra atômica é apenas a destruição do mundo, não tem fundamento. Ficam as armas em menor escala, os vídeo-games de guerra, onde apenas se constata a disparidade e a comercialização bélica, que precisa vender. Vemos cada vez com maior perplexidade os conflitos no Oriente Médio, e sabemos que o fim não será incontinenti. Já Renato Russo numa música lembra que a guerra previne a superpopulação, apesar da ideias do músico serem com base em filósofo Rousseau, conforme disse sua mãe em entrevista. Sabemos que a busca dos mestres espirituais e místicos sempre foi pela paz, e que essas guerras não se justificam, nem com base teológica, e menos ainda com base exclusivamente materialista ou econômica. Quando semeamos a competição não esportiva, estamos semeando a guerra. A intolerância, o preconceito, tudo é semear a guerra, como ensinou místico Ralph Lewis.
A guerra nos prende a uma escravidão moral e a laços kármicos que atravessam a história, que de forma cíclica se repete de tempos em tempos, mudando os atores. Assim a roda de Sânsara se converte em péssima estadia, disseminando qualquer otimismo em se viver nesse planeta, quando se está em meio a essas desavenças existenciais, que antes seriam internas, que externas. Antes a ideia de hippies e bitnicks, sobre “fazer amor, e não fazer a guerra”. A opção é mais romântica, apesar dos apegos e descartes que umas pessoas tentam fazer para com as outras, e na antiga guerra dos sexos entre homens e mulheres.  
(Excerto de programa de rádio Filosofia é liberdade, que autor apresenta junto a Cléverson Israel Minikovsky, que passa na rádio Liberdade FM, aos sábados 21:40)
 Fontes:
A arte da guerra – Maquiavel
Tao te Ching – Lao-tsé

Comentários

  1. Quem lançou a ideia foi Heráclito com o vir a ser que é a luta do ser com o não ser. A realidade é essencialmente beligerante. Nisto os filósofos mais desencontrados concordam: desde Hegel com sua dialética até o anti-hegeliano Nietzsche. Penso que devemos trabalhar por uma harmonia em meio a isto tudo. Esta é a proposta da seicho-no-ie que reconhece a beligerância da qual decorre a necessidade de reconciliação. Para o cristianismo o grande beligerante é satanás e Cristo é o grande Reconciliador. CLÉVERSON ISRAEL MINIKOVSKY

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  2. SABE QUE A GUERRA INTERIOR NOS LEVA A ESSE VIR A SER...DE HERACLITO..E JESUS INTERAGE COM SATA.. SENDO O ULTIMO NECESSARIO.. MAS SUPERADO PELO ADEPTO..ESSENIO.. SENAO ERA UMA PORCAO INTERIOR QUE ENCONTROU AO ENCARNAR O DIVINO NO HOMEM..DE CORPO CARNAL AINDA ANIMALIZADO. OBRIGADO CLEVERSON..E PAZ PROFUNDA

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