Silêncio e discurso

A essência das pessoas revelada no discurso





            Um discurso mantém um diálogo. O que é essa troca que eleva os interlocutores até o céu? Parece que a essência é que se revela na palavra, quando a aparência usa pelo contrário, de muitas máscaras. Então, o mesmo homem que do lado de fora de uma igreja fuma, ao entrar joga seu cigarro e veste a máscara correspondente. Outra pessoa muda de roupa, uma esposa agrada seu marido com uma lingerie, um policial veste seu armamento, um advogado seu terno. A aparência é um discurso que vai além, que não precisa de palavras, e é seu silêncio que se revela poderoso. A banalidade por outro lado se mescla ao coitadismo quando vemos nas pessoas se queixando de mil problemas que ampliam pelo seu pessimismo corriqueiro. Mas o que observamos em um grupo de pessoas que conversam?
            De um lado e em cada célula formada por cada estilo, vemos diálogos correspondentes a personalidades e arquétipos, tipos mesmo de pessoas. Primeiro se começa pelo gênero: mulheres com mulheres e homens com homens, e seus assuntos característicos, isso até explicado pela psicobiologia. Os temperamentos veem em seguida, com os esquizotímicos falando de matemática em uma célula de pessoas, as mulheres sanguíneas mostrando sua tatuagem no pé com salto alto, os poderosos coléricos trocando ideias sobre conquistas profissionais e financeiras, os fleumáticos contam piadas ou falam de um lugar com outro clima e suas peculiaridades, em mínimos detalhes. Mas é a fome que os aproxima em instintos, que nivela sua forma espontânea de existir, calando as bocas e favorecendo a interiorização, mesmo que seja de churrasco e cerveja, que entram pelas respectivas bocas. Também essas pessoas se organizam em um lugar, cada um desempenhando cada região, uns sendo o norte, outros o leste, outros o ocidente desse mundo que formam em miniatura, em qualquer sala, encontro, local onde se entretêm. Semelhante a uma sala de aula, as pessoas se encaixam em cada carteira de acordo com suas personalidades, elas nunca escolhem onde se sentam.
            O discurso é o mesmo. Acredito que muitos filósofos não falavam mais do que pensavam, e por isso vemos as pérolas de aforismos e provérbios que atravessam séculos e ainda são atuais, por denunciar mazelas do arrebanhamento que vemos nas pessoas e seus respectivos lugares inatos. Cada vez mais acredito no inconsciente e na biologia dos seres, até mesmo dos animais humanos, com toda a pompa e tecnologias que inventam. E o aspecto universalizante disso tudo é que o silêncio é a linguagem universal, a expressão corporal em sua companhia, revelando sim algo comum a todo o ser humano. Pode ser o inglês, o francês do passado, o latim de Roma, cada império ao longo da história imporá a sua língua as colônias, a sua “globalização”. A contrario sensu, é o silêncio e a linguagem corporal que serão sempre as línguas globais, o que atravessa e transcende qualquer gramática ou signo inventado pelos homens para fazer um simulacro daquilo que são. O mesmo homem não verbaliza o que já não é, mas é sim uma palavra que fala, anda, respira.
            Um alemão deveria ser silencioso. Mas isso pode parecer a priori um rancor, uma forma de aversão. Não é, pois esse silencioso é que fala mais com sua inércia, e essa inércia pode revelar muitos segredos, pois guarda palavras e ideias já mais “mastigadas”. Enquanto alguns falam algo rapidamente sobre sua opinião, o que nos advertiu Sócrates em seu tempo, outros deveriam pensar mais antes de responder o que é Justiça? O que é Liberdade? ou grandes temas da mesma espécie. Acredito que antes a natureza verdadeira de cada um, seu quase instinto é que faz o que a pessoa é, não a sua opinião, uma vez que essa opinião mesma decorre do que a pessoa sente, de seus desejos e anseios. Já o orador é aquele que deseja falar pelos outros, sintetizar uma opinião que entende comum. Antes de querer provar algo, ele quer conciliar os contrários. O orador é um grande conciliador, um bom político. Mas isso não vai além daquilo que é mediano em seu espírito, e sempre haverá alguém que o entenderá como uma voz isolada. Mas é a coragem que faz da voz isolada do orador algo que se exterioriza e tira a máscara, ou mostra muitas máscaras, revelando a mudança de uma para outra. É a aparência amplificada, potencializada. Do outro lado e extremo vem o silêncio, que longe de ser um consentir, é sim outro discurso. As melhores respostas imediatas vêm do orador, mas a mediatas dos silenciosos. Por fim é a essência mesma que se revela no discurso, e a aparência é mais um discurso, assim como o silêncio e a expressão corporal. As pessoas falam para antecipar tudo isso, e não fogem daquilo que são, de sua natureza biológica. Cada um veste seu respectivo totem, seu animal simbólico que tem suas potencialidades e um pouco aqui e ali se revela em atos e palavras, e que ao bom observador nunca passam despercebidas. 

Comentários

  1. A realidade é um plexo de linguagens. Linguagem simbólica, falada, presumida ou nuncupativa, visual, auditiva. Fico muito encantado com a função estética da linguagem. É isto o que vou falar no meu livro de oumperiforalogia. A beleza tem sido colocada como busca de referência no lugar da simples busca pela sobrevivência. Ela participa do reino das premissas e dos corolários. Obrigado Mariano. CLÉVERSON ISRAEL MINIKOVSKY

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