Controlar demais é afastar

Controlar demais é afastar




            Vejo quem deseja “ter” o outro, e esse ter é justamente o motivo do outro buscar libertação, traição, faltar com respeito. As pessoas estão juntas, seja na família, amizade, relacionamento e mesmo casamento, por confiarem, terem afeto. O sentimento é algo legítimo, sincero, não é uma obrigação. Por isso tanta gente gosta mais de animal de estimação que de um marido ou esposa: o bichinho tem afeto sincero, não cobra, não briga. O controle é uma forma de perfeccionismo, de insegurança. As pessoas controlam o que não têm, para ter a segura ilusão de que possuem. Pode-se possuir objetos, não pessoas, as pessoas têm um valor diferente que as coisas, têm dignidade, como já falou o filósofo alemão Immanuel Kant.
            Vejo os controladores como pessoas briguentas, cheias de remorsos, bloqueios etc. O seu marido, esposa ou outra pessoa é sempre perfeita aos seus olhos, já eles se anulam, não são nada sem essa pessoa. O que merece o nada? Nada. Porque tamanho sonho se reveste de necessidade de aproximação, quando se não é próximo? A maior proximidade que os seres humanos têm parece ser a intimidade, a sexualidade. Mas nem conversam, como podem ter alguma intimidade. Fossem sinceros, assumissem o que desejam, as fantasias, a verdade, tudo seria mais claro. Vestem a ilusão do lar perfeito, e a família já não é mesma, pela própria vida moderna, daí há frustração. A nossa sociedade é de indivíduos, ninguém é de ninguém.
            Porém por amor as pessoas têm vínculos confiáveis, e isso não se relaciona a beleza, poder, interesse, mas a essa verdadeira sinceridade. Não é o vínculo de sangue familiar ou o papel de casamento que faz isso, mas a realidade, o aqui e agora (hic et nunc). Um verdadeiro afeto parece garantir os vínculos, e não há tempo pra isso, não há crise de 7 anos, nem desgaste, nem nada, isso é tudo teoria e invenção. Estar feliz, seja na família, relacionamento, com o cachorro, faz agente querer permanecer. O ser humano gosta de segurança, ele se cansa de aventura, uns gostam mais de aventura, mas o normal é ter um colo para descansar.
            E quem controla afasta. O controle freia a diversão, é um chato. Claro que as pessoas são diferentes, umas exageram, e precisam ser avisadas, alguém pode lhe dar conselhos. Aconselhar não é controlar, não é obrigação. As pessoas por si mesmas podem se libertar de vícios, maus hábitos. Mas quem confia na pessoa fala para ela, já quem fofoca e não confia, fala dela. Deve-se assumir o sentimento, demonstrá-lo. Chorar quando se está triste, abraçar, tocar, beijar, falar, confessar. Se há ciúmes, tem de falar porque e em qual situação. Mas não há traição de outra pessoa. Quando se trai ou ocorre que se está traindo a si mesmo (sua promessa, opinião, princípios, valores etc) ou se está fazendo o que se faz para não se trair a si mesmo. Mas quem ama não trai. Porém as pessoas se enganam, formam controles e se apegam, se anulam, são instáveis, têm orgulho. Deixar as coisas acontecerem abre muitas portas na vida. As pessoas descoladas têm muitas oportunidades, não são certinhas, mas também não sofrem tanto. O controlador ou controladora é certinho(a), mas é mentiroso(a). Acaba não divertindo, afastando. As pessoas querem felicidade, não querem algo muito preso, pois o ser humano está condenado a ser livre, como disse Sartre.

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