Estigmatizado por espinhos no coração


ESTIGMATIZADO POR ESPINHOS NO CORAÇÃO




            Hoje o dia vestiu sua coroa de Sol e lançou no chão o ouro da sua monarquia. Eu acordei bem, apesar do dia de ontem, onde fui mais uma vez estigmatizado emocionalmente. Mas quem se importa? Assim, mais um término de férias, mais um fim de semana, mais um tempo vazio. Encho o copo e esvazio, e minha vida continua um copo de vidro. É um vidro trincado. É um copo sensível. Parece que ninguém quer pegar. Tenho a fonte das melhores coisas, mas sou considerado fonte impura. Agora me isolo, e desejo me isolar, vendo o brilho do assoalho do sótão de casa, nessa manhã suave de sábado. As marcas dos espinhos ainda estão pelo meu corpo. Mais especificamente no coração. Sou poeta sem canção, sou verso sem rima. Bem, fato é que em verdade uma mulher me disse ontem que podemos “ainda ser amigos”.
         Não é de hoje que me vejo compelido a apenas ser amigo de mulheres. Isso me deu vantagens, me fez ter uma visão ampla de mundo. Outra cosmovisão me foi possibilitada. Agora tenho a dimensão materna e ânima das coisas, lunar. Mas é interessante que a mesma situação vem de uma rejeição, de apesar do elogio, achar um meio para “me dar o fora” e continuar a vida, vestindo o leve modelo para não se ter peso na consciência. Um vestido de cores sombrias as mulheres me reservam. E eu conheço os espinhos. Sempre fui resistente a dor, estava até meio que acostumado. Mas espinhos arranham, têm algo que irrita. Não são só espinhos. Eles têm algo que fura não só a epiderme, mas que traspassa a alma. E por fim intoxica o coração.  Já sou um faquir – eu deito na cama de espinhos. Mesmo assim eu sou amigo, eu sou visto como que bom conversador, como um cara legal, sou visto assim, mas não conheço a rosa, ela continua uma flor distante, algo borrado em uma obra de arte impressionista.
         De que adianta eu ter doado meus versos e meu coração? Fica a lembrança artística, uma carta especial guardada na gaveta, da lembrança de um dia que nunca foi. Tem gente que choraria ao receber uma carta semelhante a que escrevi – não por palavras bonitas que continha, mas pela profundidade de seu espírito. Pelo contrário, não importa o que foi dito, talvez por ser eu quem escreveu. Fosse outro, as coisas seriam bem mais intensas e recompensadas. E o sonho dormiu comigo, escreveu na língua de Morfeu um ideal em relação a uma musa, e restou a arte da musa, restou o vapor do que nunca talvez tenha existido. Disse eu para o sonho: “Não posso sonhar”. E ele me perguntou o porquê, sendo que eu lhe respondi: “Porque os sonhos se realizam ao contrário”. Então não troquei mais mensagens com esse demônio chifrudo e cheirando a enxofre, e assim os sonhos se tornaram apenas retratos de inconsciente, sem importância. Meu mundo fica desencantado com o tempo.
         Sorte minha ter a aspiração de ser como um Elias, um Enoc, um Matusalém, personagens bíblicos que não morreram, mas foram sugados pelo céu, arrebatados. Então tenho outro mundo para morar, com anjos (e anjas...), e assim estou mais tranquilo. O meu sonho pode então talvez um dia reacordar, esquecer das cicatrizes ou estigmas dos espinhos, e pensar no amor sem trazer juntamente a tão sentida dor. E ainda ela me disse que sou eu que levo a vida que tenho, que não entende a minha vida, que sou bom partido, pra eu conhecer alguém pela internet, ir a barzinho (e mais baboseiras...). Acho que estamos em um tempo alienante, onde as pessoas têm as coisas, e descartam, desejam ter ilusões a realidades. Por isso que bebem. E eu não sou mais de beber – quero a realidade em minha vida. E sobre a internet, foi apenas um meio de eu ter ganhado “foras” virtuais. Mas voltando a espinhos, é por sorte que eles me fortalecem. Parece aquela prática indígena onde se raspa o corpo, a pele até sangrar, pra ficar mais forte. E minha pele anda vermelha, anda meio que algo tupi.
         Para esquecer dos estigmas tenho assim meus livros. Recentemente publiquei o “Metas para uma vida feliz”, com Janete Dopke, e assim vou levando os dias com certo ânimo. E estou acabando um livro sobre esoterismo, onde discorro sobre conceitos antigos de magia e misticismo. Assim vou me distraindo e anestesiando. Estava eu também assistindo ontem à noite um seriado que eu gostava, que passava por volta de anos 2000, que foi o “Arquivo X”. Fiquei vendo isso e pensando no trabalho que logo volta, na rotina que trama a sua teia, feito aranha cheia de vida. E logo vem a tão temida segunda-feira, e vem aquilo que uma mulher me disse ceta vez, uma gaúcha, minha “vidinha”. Mas na época eu não estava tão focado como escritor. Agora minha vida é uma missão cósmica, e se tenho estigmas é que sou meio santo, um quase São Francisco, e assim ninguém pode julgar se falta aventura em minha vida, ou se sou isso ou aquilo. Importa é que vou levando a vida, e não desisto das coisas. Que os espinhos não me matem! E um filósofo não nasce todo dia. Nós somos semente rara. Talvez por isso sejamos tão valorosos. E apenas desvalorizados por aquelas que acham nos estigmas o nosso defeito. E o coração só é melhor por ter essas marcas.

Comentários

  1. O amor é como a carreira de escritor. Nunca esqueça que John Creasey antes de publicar 564 livros levou 753 rejeições de editoras. Quem lhe rejeitou não era digno de você. Você achou que era a pessoa, mas o melhor de Deus ainda está por vir, todo Adão tem a sua Eva. CLÉVERSON ISRAEL MINIKOVSKY

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